Afasta esse medo pueril da morte. Sou eterna e invariável, como tu és mortal e te transformas. Sou a vida, e os teus tormentos e a tua existência não me dizem respeito. S. Masoch
Enquanto a chuva cai lá fora e as pessoas insistem em manter suas máscaras, eu só quero me manter viva. Já não aguento mais conversas paralelas sobre as imbecilidades de uma vida fútil. Observações desnecessárias, perda de um tempo precioso.
Enquanto a maioria ao meu redor quer enxergar a matéria, eu só quero espiar esse mundo invisível. Cheio de recordações e lembranças. Onde minha pátria ainda há de me receber.
Minha vontade é de que essas bocas sejam caladas. Que as mentes sejam usadas e que a compreenssão pudesse existir. Essas pessoas falam de merda nenhuma, de interesses que nem eu nem você fazem parte, de um mundo irreal, coberto pelas máscaras que elas mesmas insistem em manter.
Passageira de uma estrada longíncua, me vejo forçada a estar entre eles. Não me envolvo, não me meto. Ignoro o absurdo do que preferem. Saio de mansinho sem que me percebam. Me escondo num canto qualquer junto a penumbra. Volto pra dentro de mim pedindo colo a essas almas que me acompanham.
Enquanto tudo parece correto demais, certo demais, quadrado, perfeito. Eu busco a desordem do caos. Sei que é de lá que eu vim e meu destino é desarrumar essa confusão que eu mesma criei.
Mas essas bocas que não se calam me ensurdecem. Elas me confundem ao longo do trecho. Desviam meu etinerário. Se preocupam demais com o que os outros pensam. Deveriam se preocupar com a essência imbecil que carregam dentro de si. É tudo nojento demais pra que eu possa se quer tocar. Faço questão de me manter bem distante desse mundo de máscaras, desses lamentos falsários, idiotas.
Clamo pra perto de mim aqueles que se encontram na mesma rota. Continuidades perdidas, sofrimentos vividos, passados enterrados. E quando os vejo diante de mim, tão assim de braços estendidos, eis que me perco e os mando embora.
Se na hora grave de um homem toda a compaixão dos outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, este homem não morreria. P. Maciel
Amigos de Bortolotto não cansam de comentar sobre aquele fatídico sábado em seus blogs. É bom termos notícias de que ele tem se recuperado e está a cada dia melhor. Graças a Eli, irmã do Mário, tenho recebido informações e continuo na torcida, assim como todos.
Mas ontem, domingão ensolarado aqui em Londrina. meu dia ficou ainda mais belo depois que li a coluna da Célia Musili na Folha de Londrina. Todo domingo ela está lá nos proporcionando momentos prazerosos de leitura. Só que ontem, na minha opinião, ela se superou. Um dos textos mais belos que li sobre o Mário até agora. Veja na íntegra:
Carta ao Mário
Descobri que você tem um coração valente e que os anjos, definitivamente, existem.
Aquele sábado amanheceu fora da ordem. No noticiário, o nome de Mário Bortolotto apareceu associado a expressões ruins: assalto, tiros, crime. Não bastasse, vinham depois aqueles palavrões dos boletins médicos: hospital, cirurgia, hemorragia, sedação.
Aquele vocabulário me fazia mal porque, definitivamente Mário, seu texto é outro. Nos acostumamos a ver seu nome associado a palavras como teatro, personagem, livros, cinema, rock & blues. Associado a peças que tem títulos líricos como ''A Lua é Minha'' ou engraçados como ''Medusa de Rayban.''
Então o sábado, depois daquele texto pesado, ficou muito triste. De repente, todos os amigos ficaram quietos. Não chegava nenhum e-mail, o telefone não tocava. Era um silêncio de fazer angústia como um destino congelado e a gente sem saber se um dia ele voltaria a escorrer nas nossas vidas, na sua vida, como esperança líquida e certa.
O domingo amanheceu com cara de segunda-feira. Acordei com medo de acessar a internet e descobrir uma sentença daquelas que não deixam saída. No fundo, sabíamos que se você vencesse aquelas primeiras horas, tudo voltaria a ser como antes, mas tivemos que esperar pacientemente. Eu me lembrava de um de seus textos mais bonitos, ''Os que vão viver tu sacaneia'', que diz: ''Deus ... não quer ver minha cara feia no céu/ Ele não quer minha urina doce nos para-choques celestiais/ Por isso me calçou com velhos bambas/ Me amamentou com livros..''. Eu pensava que quem escreve textos assim devia ser poupado.
Sempre te achei muito forte, com aquele andar de urso que usa coturnos e sai de sobretudo pelas ruas como um personagem dos filmes. É verdade que nunca te associei a um daqueles ursos malvados da América do Norte, das montanhas frias da terra de Kerouac. Sei que você não vai gostar da imagem Mário, mas para mim você sempre foi um ursão de pelúcia, uma pessoa afetiva que diz: ''Oi Celinha,'' quando me encontra em Londrina ou numa esquina qualquer de São Paulo.
Por tudo isso, quando soube daquele tiroteio em que você foi o alvo, rezei pra Deus, pra Zeus, pra Thor, pra Tupã. Pensei em encomendar uma pajelança, um benzimento, qualquer coisa que tirasse você daquele maldito risco. Pensava que quando te encontrasse de novo, te daria um abraço tão forte que você cuspiria a terceira bala, aquela que os médicos não encontraram dentro do seu corpo. Então, quero pedir Mário, para que você nunca mais engula balas. Melhor beber bourbon ou uísque nacional on the rocks. Mas bala, não.
Nestes dias descobri que você tem ainda mais amigos do que a gente imaginava. Eles estão em Londrina, São Paulo, Salvador, Aracaju. Eles choraram quando você quase perdeu a vida. Ninguém queria te perder para três balas. Pra nossa sorte, descobrimos que você tem mesmo um coração valente e aqueles anjos que às vezes você invoca nas madrugadas, dando bandeira da sua fé nuns textos, definitivamente existem.
Quando te acertaram Mário, levantamos em Londrina uma onda de energia como quem levanta o pó da terra vermelha, para dar junto com você a volta por cima. A torcida foi grande. Ela também se levantou em São Paulo, no Rio, em qualquer ponto do Brasil que chorou e depois se alegrou, quando percebeu que o pior havia passado e que você tem a proteção de Deus, aquele mesmo que te ''calçou com bambas e te amamentou com livros.''
Outro dia, encontrei no blog da Neuza Pinheiro um texto de Pedro Maciel que transformei em oração. O repeti em momentos de aflição e o repito agora, como quem sela uma alegria. Preste atenção Mário, porque este texto cai tão bem quanto aquele seu velho sobretudo: ''Se na hora grave de um homem toda a compaixão dos outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, este homem não morreria.''
A melhor manchete do ano foi você ter ficado com a gente.
Foi só olhar pra noite que ela veio feito a lua cheia inspiração
Ventos raivosos tempo que silencia a alma escuro que me atrai para a rua
Foi só olhar pro céu que eu gelei a alma feito ferro derretido à brasa me despenco de novo do mal saio cambaleante por aí em busca de um eu que se afugenta calo a boca que fere mas rompo com o silêncio que vivifica
Foi só olhar pela janela que avistei você rosto pálido e frio como a noite desejos de céu, de aspirar tudo o que chega simplesmente ir até onde degraus da cidade calada possam me levar
Porque foi só piscar os olhos pra perceber que os percalços da lei existem as exigências, os medos e a falta de coragem de se entregar para todo esse dia nebuloso que está acontecendo do lado de fora da minha janela avistada pela profundeza de minha alma.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
Bortolotto com sua banda Saco de Ratos em setembro deste ano no Londrix 2009 - Foto Fer Borges
Fazia pouco tempo antes dessa merda que rolou, tinha descolado um livro e um CD do Bortolotto, o "Mário Bortolotto e Ked´s - Cachorros Gostam de Bourbon". Andava curtindo o som, mesmo depois de ter escutado esse som há muito tempo atrás, quando ainda namorava o Chico, lá por volta de 2000 ou antes até. Sou péssima para datas.
O Chico sempre curtiu o Bortolotto. Foi por meio dele que conheci o trabalho do Mário. Eu tentava levar um namoro sério e ele preferia se embreagar curtindo um rock e lendo escritos assim. Então me envolvi com tudo aquilo e nunca mais fui a mesma. Anos depois, conheci a Eli, irmã de Bortolotto na faculdade. Que mundo pequeno, não? É bacana vivermos a arte de quem é de nossa terra. Quem escreve por aqui, viveu aqui e distribui essa vivência por aí, pelas grandes capitais, grandes centros. Não tinha dúvida de que Londrina era pequena, pouco espaço pra ele.
E tem uma música que gosto bastante. Não sei se essa faz parte do repértório da Saco de Ratos, acho que não. Pelo menos a última vez que eles tocaram em Londrina não rolou essa. Mas eu gosto. Ah! E o Bruno Bandido, amigão de blog do Bortolotto que ainda não teve oportunidade de ver o show dos caras, aguenta firme aí que eu tenho certeza que você terá muitas oportunidades ainda. E se prepare porque eles tocam por mais de três horas ininterruptamente.
BR 369 Garota, tô a seis dias na estrada faz uma cara que eu não como nada Descolei um rango anteontem na casa de um cara que filosofava e enquanto ou ouvia suas vãs filosofias eu viajava na sua retina meu cabelo oleoso, minha cara insone eu já me formei, tô fugindo dos homi
Embarquei numa trip de benzedrina peguei gonorréia com a minha vizinha eu parei sob a lua pra fazer xixi e quase que me afoguei no Rio Tibagi com Chuck Berry na minha cabeça eu só quero que essa neblina desapareça M. Bortolotto
Do lado de cá da cidade chove todas as noites As pessoas bebem demais e são todas muito sensíveis M. Bortolotto
Deixei metade do copo com cerveja no bolcão do bar e fui embora. Foi pra ele. Pro Bortolotto. Sei que ele ficaria puto porque com certeza iria preferir uma dose de whiski. Mas foi o máximo que conseguir fazer. Depois de beber alguns poucos copos e já me sentir embreagada. Volto a estaca zero. O cronômetro deve voltar a girar.
Bebi em homenagem a ele, lá na Vila Cemitério de Automóveis onde poetas e amigos mais chegados recitavam poemas sobre uma luz escura. Eu não sou uma amiga chegada. Eu só estava lá. Encostada no balcão do bar a escutar os escritos mais fudidos que eu já li na vida. Uma inseta encostada nao balcão bar. Só isso.
Mas valeu o registro. Valeu a vibração. Sei que tudo isso tá chegando até ele de alguma forma. Com a intensidade que tem que chegar. Eu acho até que ele esteve em alma no meio de nós. Rindo com o canto da boca quando via o Rodrigo Garcia Lopes o interpretando tão bem.
Fecho a noite falando embreaguices pelo telefone. Não me satisfaço em voltar pra casa com a cabeça pesada. Insisto em me ver por dentro e encontro uma herege. É, dessas feitas em produção norte-americana que todo mundo quer apedrejar, tacar fogo ou sei-lá mais o que.
Só sei que os copos da noite me visitaram hoje. Deixaram seus rastros na minha camiseta manchada com a gordura que tinha caído no balcão. Eu sempre gostei de balcão de bar. Sempre estive neles. Encostada com um copo na mão e cigarro em outra. Hoje a nicotina já não faz mais parte da minha vida. Muito menos o alcool. Meus últimos goles foram só pra celebrar o peito de ferro de Bortolotto que ainda vai vasculhar esse mundo virtual e perceber o quanto a sua presença é importante para todos nós.
Ato contra a violência e pela vida, às 20h, na Vila Cemitério de Automóveis. Leituras dos escritos de Bortolotto. R. João Pessoa, 103 - Londrina
Foto by Divulgação / Folha de Londrina
E ele está saindo dessa. Cada vez melhor! Notícias nos chegam de que hoje ele abriu os olhos, reconheceu familiares e reage cada vez mais aos procedimentos médicos. É isso aí Bortolotto, estamos contigo! E o amigo de Mário, Márcio Américo, conseguiu expressar boa parte do que ele é, como pessoa, como artista, como ser humano. Dê uma olhada no blog dele.
Dessa multidão Prisioneiro sou Só meu canto é livre Eu vou Nesse mundo que Ando sem saber Sem tempo pra poder amar Você
Ando sem vontade de escrever. Dias atrás meus pensamentos bombavam na mente e eu precisava anotar tudo, tamanha era a quantidade de escritos que me vinham na cabeça. Hoje não. Hoje estou cansada. O último dia da semana sempre me dá a liberdade de me sentir um pouco mais vagabunda. Faço tudo meio às coxas. Faço só o que deve ser feito e pronto. Me dou ao luxo de ser eu, exatamente assim como sou. Sem mais, nem menos.
Algumas pessoas não entendem. Talvez nunca entenderão. Essa expectativa que crio das coisas. Hoje pelo menos curto muito mais a vida criando certas expectativas em coisas e não nas pessoas. O tempo é curto pra minha demanda. E acredite, tenho tirado muito mais proveito disso tudo do que quando andava por aí ultrapassando as portas da percepção.
MAs nem sei porque estou falando sobre isso. Comecei escrevendo sobre minha falta de vontade de escrever. É, isso mesmo. Tenho fases assim. E são justamente em fases como essa que olho pra esse blog e tenho vontade de deletar tudo. Fico com raiva de sentir falta do tesão em escrever. Isso me incomoda. Parece com a sensação de prisão de ventre. Tem um monte de coisa lá dentro mas que não consegue sair.
Então em dias assim eu tanto ser mais light comigo mesma. Não me cobro tanto. Ainda que um ser ariano como eu tenha essa dificuldade, mas eu tento. E deixo as coisas acontecerem por si só. O problema maior é que eu sei que o final disso sempre dá merda. Daí quando volto a me dar conta, pronto, já é tarde.
Tenho amigos que cobram minha presença. Que acham ruim tudo isso que eu faço. Que não veem a hora de eu colocar os pés na areia e tomar uma garrafa de vinho olhando pro céu. Outros já desistiram de entender, mas vivem por perto. Talvez porque acham que eu vou esquecê-los se se afastarem algum dia de mim. Mas isso dificilmente acontecerá. Pessoas importantes na minha vida bastam surgir uma vez.
Esses dias falei com uma dessas pessoas. Sabe uma daquelas que um dia fez total diferença na sua vida? É, bem isso. Engraçado como o tempo parece não mudar nada. Passa anos e mais anos e a importância continuará a mesma. Eu posso ter mudado, as pessoas também, mas o valor que damos a elas permanecem.
Há aquelas também que conhecemos em quinze minutos de conversa e já sentimos identificação total. Como se fossemos amigos íntimos, de longa data. Bom, eu que acredito em reencarnação vejo que não há nada de mistério nisso. Há sim uma satisfação muito grande. Alegria, vontade de estar perto de novo, vontade de compartilhar emoções e todo o resto que nós já sabemos.
Mas como eu sou praticamente um E.T. nesse mundo desordenado, esses dias que eu não tenho sentido vontade de escrever, tem me feito me sentir isolada. Parece que a falta da escrita me condiciona uma situação ainda pior do que a que um dia estabeleci pra mim. Então me questiono: deletar ou não deletar esse blog? Eis a questão. Pra que vou manter um espaço feito para colocarmos nossos escritos se não tenho vontade de fazê-lo?
Tá. Vou contar até mil pra ver se a vontade passa. Até mesmo porque fiz amizades tão legais por meio do blog. Não desse aqui, do outro que eu deletei quando tive um surto parecido com esse que tô tendo nesse momento. Acho que vou deixar a vontade passar só pra depois ter que voltar aqui e escrever tudo de novo mais ou menos isso que escrevo hoje. E diante de tanta chatice, daqui a pouco nem eu mesma acesso mais esse blog. Blergh.